UTAD aposta no combate ao abandono escolar

11-11-2014 15:28

Conhecer e compreender a situação do abandono escolar na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), visando formular recomendações sobre programas e iniciativas vocacionadas para a redução dos efeitos da condição socioeconómica e cultural, de modo a oferecer aos estudantes em risco de abandono uma oportunidade de frequência bem-sucedida de um curso de ensino superior” foram os objectivos de um estudo exploratório realizado entre Maio e Julho de 2014.
Na sequência da decisão do Conselho Geral da UTAD o estudo desenvolvido foi coordenado pelo docente e investigador do Departamento de Economia, Sociologia e Gestão Fernando Bessa.

Fernando Bessa coordenou o estudoFernando Bessa coordenou o estudo,

Segundo o responsável, “os resultados exigem um olhar atento a este fenómeno que mostra uma realidade nacional inquietante, sobretudo se atendermos à situação dos restantes países da União Europeia”.

Neste contexto, a UTAD vai procurar os meios para implementar um conjunto de medidas, visando combater um dos fenómenos mais preocupantes que atinge os sistemas educativos nacionais.

Amostra

O estudo incidiu nos alunos de licenciatura e mestrado integrado da UTAD matriculados em 2013/2014. Foram identificados 1117 estudantes em situação de incumprimento no pagamento de propinas e 86 alunos em situação de anulação de matrícula. Dos 1203 alunos identificados, foram contactados 355, tendo um número reduzido mostrado disponibilidade para serem inquiridos.

O abandono escolar atinge, sobretudo, os alunos recém-chegados
O abandono escolar atinge, sobretudo, os alunos recém-chegados
As inquirições foram realizadas por telefone através de questionário a 37 alunos, sendo que oito aceitaram participar em entrevista aprofundada realizada presencialmente.

Resultados

O abandono escolar atinge, sobretudo, os alunos recém-chegados à UTAD (81.1% dos que abandonaram fizeram-no no primeiro ano do curso). Sendo vários e diferentes os motivos apontados para o abandono, os mais referidos são (por ordem decrescente): “licenciatura não correspondeu às expectativas”; “dificuldades económicas”; “adaptação à cidade e à vida académica”; “conciliação com a vida profissional”.

São ainda apresentadas outras razões, como “questões pessoais não explicitadas”, “frequência de curso de especialização tecnológica”, “problemas de saúde”, “opção pela carreira militar”, “desinteresse pelo prosseguimento de estudos” e “incompatibilidade de horário”.

Não obstante o desapontamento em relação ao curso ser mais evocado do que as dificuldades económicas, o confronto com as respostas a outras questões do inquérito, nomeadamente as de índole económica, permite concluir que este motivo é menos decisivo do que o económico. O desapontamento em relação à licenciatura está ligado, fundamentalmente, ao não ingresso no curso pretendido.

É relevante considerar que estamos perante alunos que, na grande maioria, vivem de forma austera. Os 19 alunos que trabalham têm um rendimento médio de 515€, com 57.9% até 500€ e 89.5% até 660€. O rendimento familiar mensal é baixo, com 85.7% das famílias a viver com até quatro salários mínimos, verificando-se que 28.6% não superam dois salários mínimos.

Rendimento familiar mensal baixo é uma das causas
Rendimento familiar mensal baixo é uma das causas
A maioria dos agregados familiares é composta por quatro (42.5%) e cinco (21.2%) elementos, situação que os coloca em situação de risco. Metade dos alunos despendia, com os estudos, até 300€ por mês.

O estudo sublinha que o incumprimento dos prazos de pagamento das propinas por mais de um milhar de estudantes (perto de 20% de estudantes em incumprimento parcial ou total), situação que, em linha com o acima mencionado, pode também indiciar carências económicas que importa conhecer e acompanhar.

A saída da UTAD é vista por 64.7% como acertada e por 23.5% dos alunos inquiridos como inevitável. Apenas dois alunos mostraram desinteresse em reingressar.

Interpelados sobre os apoios úteis a este reingresso, os alunos mencionaram como mais relevantes, o aumento do valor da bolsa, maiores facilidades para trabalhadores estudantes (v.g., flexibilidade do horário de trabalho e canal próprio para o atendimento nos Serviços Académicos) e acesso a bolsas e outros apoios sociais de que beneficiam os alunos não trabalhadores.