Sonda Near continua (surpreendentemente) a enviar dados do asteróide Eros
A sonda Near Shoemaker - a primeira da história da humanidade a aterrar num asteróide, na segunda-feira - continua a enviar dados para a Terra, para surpresa de todos. Por isso, a agência espacial norte-americana NASA decidiu que a missão da sonda na superfície do Eros 433 se prolongará por mais dez dias, para que os instrumentos científicos continuem a recolher dados únicos sobre a composição do asteróide."Vamos estender a operação por mais dez dias para reunir mais dados sobre os abundantes elementos do asteróide", disse Jay Bergstralh, da NASA, citado pela BBC Online. Afinal, o Eros não só é o primeiro asteróide (a que também se chama pequeno planeta) onde uma sonda aterrou, como é apenas o quinto corpo celeste onde o homem, ou a sua tecnologia, alguma vez foi: primeiro a Lua, e depois Marte, Vénus e Júpiter.A Near aterrou suavemente sobre o Eros, ao fim da tarde de segunda-feira, pondo fim a uma viagem de cinco anos, mais de 3,2 mil milhões de quilómetros e a um ano inteiro de namoro em órbita deste grande calhau espacial - um namoro a 35 quilómetros de distância, que permitiu o envio para a Terra de 160 mil imagens da superfície deste asteróide que a uns parece uma batata espacial e a outros um biscoito de cão. O pouso sobre o Eros deu-se a velocidades inferiores a sete quilómetros por hora, o que terá constituído uma das aterragens mais lentas da história da exploração espacial num corpo celeste, sublinha um comunicado de imprensa da NASA. A agência espacial está, assim, felicíssima com esta missão. Um dos motivos prende-se com o facto de a Near ter sido concebida para andar em órbita, e não para aterrar. E contra todas as previsões - lembre-se o que aconteceu à sonda Mars Polar Lander, que ficou surda-muda quando pousou em Marte em Dezembro de 1999 - continua a enviar dados para Terra. "Demos prioridade à obtenção de imagens de grande resolução da superfície e, só depois, a uma aterragem segura da sonda - só que conseguimos fazer as duas coisas", declarou Robert Farquhar, director de missão da Near. Nos derradeiros cinco quilómetros da descida da Near sobre o Eros, a sonda recolheu 69 imagens de grande pormenor da superfície. Nunca antes se tinham obtido imagens de tão grande resolução de um asteróide. As quatro fotografias publicadas estão entre as últimas tiradas pela Near na descida. Na primeira - tirada a 1150 metros da superfície e que mostra uma área com 54 metros de largura - aparece um monte com alguma elevação, enquanto as outras saliências estão parcialmente enterradas por materiais soltos. E na última imagem, tirada antes do nariz da sonda, por assim dizer, ter tocado no chão do asteróide, a 120 metros de altura, vê-se uma área de apenas seis metros de largura. Revela características pequeníssimas do Eros, que têm apenas um centímetro de largura. Mas o lado curioso desta imagem é que a parte final mostra como a transmissão de dados para a Terra foi interrompida quando a Near tocou no Eros.As características do Eros reveladas pelas imagens estão a espicaçar a curiosidade dos cientistas, tanto mais que o interesse por asteróides como o Eros se deve ao facto de estes corpos celestes serem os resíduos que ficaram dos tempos da formação do sistema solar. Conhecer melhor a sua composição significa saber mais sobre o nascimento do sistema solar, incluindo a Terra."Estas imagens começaram a responder a muitas questões que tínhamos sobre o Eros, mas também revelam novos mistérios, que iremos explorar nos próximos anos", disse Joseph Ververka, da Universidade de Cornell, em Ithaca, líder da equipa responsável pela recolha de imagens da Near. Um dos mistérios é a abundância de enormes elevações na superfície, talvez um milhão delas. A hipótese é que os impactos no asteróide por outros calhaus espaciais foram tão fortes que as poeiras e detritos resultantes ficaram acumuladas em montinhos. A outra surpresa é a quase ausência de crateras, que poderão ter sido preenchidas pelas poeiras das colisões.A esperança dos cientistas é que a Near continue a enviar dados sobre a composição de Eros nas próximas semanas, até que o Sol, que alimenta os painéis solares, fique fora do seu alcance. Imagens é que nunca mais enviará, pois as câmaras ficaram cobertas pelas poeiras. A NASA decidiu que, até ficar silenciosa, a sonda não mudará de local. Depois, repousará para sempre no Eros, uma rocha com 33 quilómetros de comprimento e 13 de diâmetro, que orbita na cintura de asteróides entre Marte e Júpiter.